3.513 e-mails não lidos, 31 novas notificações e todas as cobranças do mundo

A caixa de e-mails cheia. 3513 e-mails não lidos. Chegou mais um, 3514.  “Curso recomendado: Escrita Criativa”, diz ele. Me lembra de que não estou estudando o tanto que deveria estudar sobre escrita. O título do e-mail abaixo me pergunta se eu estou gostando do curso de aquarela que estou fazendo. Eu me sinto mal. Passei o final de semana inteiro fazendo este curso. É só um hobby. E aí deixei minhas obrigações para mais tarde.

O próximo é um e-mail do Uber sobre minha última viagem. Ele me faz lembrar da fatura do cartão de crédito. Mais especificamente, do exército de corridas de Uber que se juntaram para me assombrar como White Walkers. O outro e-mail? Um anúncio de um curso de SEO. É, talvez eu devesse mesmo aprender mais sobre SEO…

Logo abaixo, um outro e-mail do Tailwind. Ativei o período de teste grátis, mas não tenho tempo de aprender a mexer. Eu preciso terminar de fazer aquele curso sobre Pinterest para entender como o Tailwind funciona… Isso vai me tomar tempo, e eu não tenho muito.

Lembro do curso que quero fazer e do meu computador que vai ser entregue para reparo em 4 dias. Preciso fazer o backup dele – e deletar tudo que não preciso mais. Me recordo das notas que preciso emitir e da confusão que estou montando para declarar o imposto de renda do próximo ano. É mercúrio retrógrado? Checo o calendário. Não é. Não tenho a quem culpar.

Balanço a cabeça negativamente. É como se estivesse num site de notícias sensacionalistas, lendo as headlines de como o mundo está fora de controle. O meu mundo que está de cabeça para baixo.

 

 

Meu celular vibra aqui do lado. Um cliente pergunta se tenho tempo para uma call hoje. Eu finjo que não vejo, pelo menos agora. Estou ocupada demais tentando manter o controle da minha própria vida enquanto só quero sair correndo sem olhar para trás.

Lembro de pesquisar sobre um sonho que tive na noite passada. Acho um artigo da minha terapeuta. Este sonho, de acordo com ela, pode indicar que eu venho me submetendo a experiências que vão contra minhas próprias necessidades e desejos. Sim, parece que sim… Começo a pensar em toda a minha vida nesse momento. Fico nervosa. Lembro dos desafios que tenho passado ultimamente e das péssimas noites de sono que tenho tido. Penso em toda a merda pela qual passei nesse ano e no quanto ainda estou enterrada nela.

Me alegro pela terapia. Finalmente! Estou precisando. Mas, vou ter que estruturar o dia de amanhã. Achei uma cabeleireira bem baratinha aqui perto, afinal, o dinheiro está curto. Se é boa, não sei. Mas, marquei. Ah… e bem no horário da yoga! Que ótimo. Não vou conseguir ir pra yoga amanhã, e depois já tenho que viajar. Paguei para não ir. E meu computador… Quando vou organizar?

Também preciso mandar um orçamento, e parar para pensar no que vou fazer. Será que aquele cliente vai me contratar? Para ser sincera, estou feliz de não ter ouvido nada dele nos últimos dias. Mas, será que ele está se fazendo de difícil? Me sinto uma bosta.

O celular vibra. Uma notificação do Headspace aparece na tela “O silencio não é a ausência de barulho. É uma qualidade da mente.” Ótimo! Só faltava essa. O aplicativo que devia me fazer ficar mais calma acaba de me lembrar que furei a meditação ontem. Era para ser o quarto dia consecutivo depois de ter parado por quase um mês. Parabéns para mim. Isso somado ao barulho da obra no vizinho me faz lembrar de como me sinto por dentro. Barulho constante, serrando, martelando, construindo e quebrando. 24h por dia. 7 dias por semana. Quero que esta obra acabe logo.

Me lembro do jantar amanhã. Uma amiga vai lá em casa e precisamos cozinhar. Eu não faço a mínima ideia do que preparar. Não sei do que ela gosta de comer e nem se minhas habilidades culinárias atendem aos gostos dela. Eu quero cozinhar algo gostoso para ela. Eu sou boa em fazer panquecas de banana e aveia e avocado toast. Todo o resto é apenas mediano. Me sinto um lixo.

Meu namorado aparece na porta. Ele me lembra das fotos da minha tomografia que preciso mandar para aquele dentista. Eu me lembro do que o dentista português me disse: você pode ter metade do seu rosto paralisado e ficar babando pelo resto da vida. Volto ao presente. Sinto uma leve dor no meu dente. Olho para ele e digo que não aguento mais, não consigo mais. Desabo e começo a chorar copiosamente. Ele não entende nada, mas me abraça. Eu explico enquanto tento respirar. Ele diz para eu fazer cada coisa de uma vez. Como se fosse simples assim! Mas, não falo nada. As lágrimas escorrem. Ele beija minha testa. Tudo parece melhor.

Mas, logo, meu celular vibra. É minha amiga. Ela está vindo aqui. Limpando os olhos observo a sala. Está uma bagunça. Os pratos do jantar se misturaram com os do café da manhã. As embalagens do lanche da tarde estão no chão. Os pincéis que usei para pintar no final de semana ainda estão na mesa e este texto está escrito pela metade.

Ele começa a limpar enquanto eu sento no sofá incrédula. Em estado de choque, tento entender como foi que eu fiquei assim. Não tenho roupas limpas, estou usando uma cueca e uma camiseta. Todo o resto está molhado. Vou até o quarto e visto uma roupa qualquer. Acho minhas calças jeans e visto-as com dificuldade. Parece que engordei. Perfeito! Mais uma preocupação para a lista.

Vou até a cozinha e vejo a pilha de louças, saio e fecho a porta deixando aquele caos para trás. Caminho até o banheiro, encaro meu reflexo, avalio meu rosto. As olheiras, uma espinha ridícula bem no meio da minha cara e a raiz do cabelo já visível. Meu Deus, que desastre! Passo um pouco de maquiagem para tentar esconder as evidências do que não quero enxergar. Respiro fundo e desvio os olhos do meu reflexo…

Lembro que deveria produzir conteúdo, gravar algo para o Instagram, começar a gravar os vídeos do meu curso sobre Pinterest. Mas, não hoje. Não com essa cara.

Venho até o computador, olho o celular antes de voltar para o artigo. Uma mensagem da minha amiga dizendo que não vem mais (porque eu não respondi a última mensagem). Afinal, eu estava limpando a casa e tentando recuperar meu bom humor perdido já há algumas horas. Eu me sinto uma péssima amiga. Eu me sinto um péssimo ser humano. Preciso responder algumas mensagens de outros amigos e colegas no WhatsApp. Mais precisamente, 31 pessoas. Talvez algumas eu nem responda mais, afinal, já se passou mais de um mês.

O celular vibra. Mais um e-mail. Um “update” do meu progresso num curso que comecei há um mês e só fiz uma aula! Parabéns para mim, sorrio com ironia. Lembro dos livros pela metade no meu kindle. Encaro o relógio que me encara de volta. Ele me acusa, “12:28, mocinha, e até agora, nada feito!” Sinto um peso colossal sobre os ombros. Apoio a cabeça nas mãos enquanto pressiono meus olhos desejando que o mundo pudesse parar para que eu pudesse colocar tudo em dia.

Abro os olhos. 12:29. Penso em publicar este artigo, mas tenho medo do que vão dizer. Deixa pra lá. Acho que preciso riscar algo da minha “to do list”. Talvez isto faça eu me sentir melhor. Logo em seguida prometo para mim: ano que vem vai ser diferente. De qualquer forma, vou estender as roupas, afinal, faz sol lá fora e o dia está lindo.


 

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