Eu sempre tive o hábito de me desculpar por quem eu sou ou por como me sinto. E mesmo quando as palavras de arrependimento não saiam da minha boca eu ainda assim me repreendia.

Infelizmente, o hábito não vai embora tão fácil e, ainda assim, existem momentos em que me pego me desculpando; vez ou outra me desculpo por chorar na presença de amigos, pela minha expressão cansada ou simplesmente por que não estou me sentindo muito sociável em determinado momento. Mas, isto já foi muito pior.

Entretanto, quando comecei a viajar sozinha como nômade digital, tudo começou a mudar.

Viajar não resolveu nenhum problema, só me ajudou a encontrá-los

Há sete meses tenho viajado sozinha.

Quando era adolescente eu sonhava em viajar. Mas, a motivação sempre foi fugir. Queria fugir das situações e dos momentos ruins. Queria fugir dos problemas.

Porém, foi quando comecei a viajar sozinha que comprovei o que eu já suspeitava: viajar não resolve nenhum problema, só os torna mais evidentes.

E é claro que, dentre as inúmeras lições que aprendi durante estes sete meses viajando sozinha, parar de me desculpar por quem eu sou ou por como me sinto foi uma delas.

Tudo começou na terapia

Não é segredo nenhum para quem me acompanha por aqui ou pelo meu Instagram que eu fiz terapia durante quase 1 ano. Inclusive, falei sobre como todos nós merecemos fazer terapia neste artigo.

Comecei porque queria mudar de emprego, sentia que estava trabalhando nos empregos errados para mim. Mas, o que comecei a descobrir com a terapia comportamental foi muito além de uma transição de carreira.


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Mal sabia eu que, ao entrar naquela sala pela primeira vez, aquele seria o início de uma transformação intensa que duraria para a vida toda.

Me questionar foi o segundo passo

Ao enfrentar meus medos de mudar de carreira, percebi que eles não estavam presentes apenas na minha vida profissional.

Meus medos e preconceitos vinham das crenças que tinha com relação à mim e à minha vida num geral.

O medo do que os outros vão achar da minha decisão. O pavor de não “dar certo”. A pressão para ser “bem sucedida”… o julgamento do que é certo e errado.

Estava ali, bem na minha frente. Mas, o que é certo e errado, afinal? Estes são conceitos tão estáveis quanto um furacão. Na verdade, eles são muito relativos e o que parece certo para mim pode parecer errado para você.

Largar um emprego que me proporcionava estabilidade financeira pode parecer loucura para você. Mas, para mim, loucura era permanecer lá enquanto eu chorava dia sim, dia não, querendo sair correndo para nunca mais voltar.

Quando aprendi a me questionar e a me desprender das crenças de certo e errado e bem e mal que minha família, amigos e a sociedade em geral me impuseram, a transformação começou.

Se aceitar é preciso

Infelizmente, eu nunca me aceitei como agora. Desde criança tive problemas de autoestima. Sofri bullying na escola e não levei na esportiva.

Tudo isso sempre me marcou muito e me fez ser muito insegura, desde a minha aparência até com quem sou por dentro. O sentimento de não pertencimento me dominava e eu sentia que não era o suficiente. Sentia que precisava ser mais – ou diferente – para ser aceita e amada.

E como um camaleão eu adaptava minha personalidade à cada situação. Eu era uma pessoa diferente em cada ambiente e entre os grupos que frequentava. Eu senti que precisava me encaixar e à cada “desvio de conduta” devia me desculpar.

Até que abandonei tudo que conhecia para partir rumo ao desconhecido.

A solitude

No início do ano me divorciei, vendemos nosso apartamento, carro e tudo que tínhamos e eu viajei sozinha pela primeira vez. Naquele momento eu estava com muito medo e também ansiosa pelo que estava por vir. Mas, mal tinha ideia do que estava para acontecer.

Eu nunca tinha ficado sozinha em toda a minha vida. Sempre – eu disse sempre – tive alguém perto de mim. Então, estando eu tão condicionada à opinião alheia, é de se assumir que eu nunca tive tempo para descobrir quem eu era sem a influência de outras pessoas.


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Portanto, também como era de se esperar, no início eu fiquei perdida. Foi aí que as perguntas começaram a surgir novamente. Comecei a questionar gostos, desgostos, preconceitos e crenças. Comecei a questionar minhas ideias de certo e errado e estava indo bem, estava me aceitando, estava me amando.

Até que encontrei alguém que me desviou do meu caminho e me mostrou que eu precisava, sim, me fortalecer e que eu ainda precisava caminhar muito para encontrar o amor próprio.

A recaída

E lá estava eu perto de alguém que conseguia fazer com que eu não me sentisse “certa” do jeito que sou. Tinha por perto uma pessoa que fazia eu sentir que precisava ser uma pessoa diferente, que eu estava errada, que eu precisava me desculpar pelo que estava sentido; e até mesmo que eu precisava parar de sentir.

Fragilizada, eu não entendi que, mais uma vez, estava permitindo que outras pessoas me afastassem da minha essência, ou pior, me fizessem acreditar que quem eu era como ser humano era um problema. Estava me permitindo fazer isto à mim mesma.

E, novamente, comecei a mudar para ser aceita, para ser amada, para me sentir parte. Até que eu não consegui mais. Eu já havia caminhando muito para voltar atrás.

 

A libertação

Depois de inúmeros contratempos e de um dos períodos mais difíceis destes últimos sete meses algo mudou dentro de mim. Eu lembro exatamente de quando aconteceu.

Era noite e eu estava sentada na sacada do meu Airbnb em Siem Reap, no Camboja, lutando para aguentar o calor opressivo e a agonia que tomava conta de mim. As lágrimas não paravam de brotar dos meus olhos, elas escorriam pelo meu rosto como cascatas e pingavam do meu queixo. Eu abracei minhas pernas e me encolhi na cadeira de palha me odiando e me perguntando por que eu era daquele jeito. E por fim, cansada de lutar eu simplesmente me rendi.

Então, naquele momento eu senti algo mudar em mim, eu comecei a questionar o por quê de eu sentir que não podia ser do jeito que era. E aí comecei a entender que aquilo que muitos podem considerar fraqueza, para mim era força. E mesmo as partes que, às vezes, não gosto tanto assim em mim eram essenciais para me construir; e não me livraria delas por nada nem por ninguém. Afinal, eu gosto do que me faz humana.

E foi aí que tudo mudou. Eu comecei a me aceitar e a me amar. E quando isto aconteceu eu já não sentia mais a necessidade de mudar quem sou para ser aceita, muito menos de me desculpar por como me sinto.

Eu comecei a mostrar aos outros quem eu sou sem me preocupar tanto com o que iriam achar de mim. E quando comecei a fazer isto percebi duas coisas: 1) a maioria das pessoas se desculpa o tempo todo – ou finge ser quem não é para agradar; 2) as pessoas começaram a se aproximar de mim e a me aceitar e amar mais do que quando eu fingia ser outra pessoa.

Por fim, há algumas semanas, depois de eu ter contato à um amigo quase toda a história da minha vida neste último ano, ele disse: “Eu te admiro”. Eu perguntei “Por que?”. Porque você é corajosa e não tem medo de ser vulnerável e se expor, ele disse. Eu não disse nada e senti vontade de chorar. Mas dessa vez, quando as lágrimas desceram eu não me desculpei.

E então, quando você vai parar de se desculpar por como você se sente?


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